Tenho visto muitas vezes no consultório homens que não chegam dizendo "meu casamento acabou", mas eles chegam falando de irritação, cansaço, vontade de ficar sozinhos, falta de paciência, excesso de trabalho. Alguns demoram bastante até perceber que parte desse desconforto está relacionada à própria relação.
Vocês conseguem, como casal, administrar a vida e decidir quem busca as crianças, quem paga determinada conta, quem leva alguém ao médico, o que será feito no fim de semana. A comunicação existe, mas ela ficou restrita à administração da casa.
Eu costumo prestar atenção nisso quando converso com um paciente. Pergunto sobre o que ele e a esposa fazem juntos quando não existe nenhuma obrigação envolvida. Às vezes ele responde rapidamente; em outras, fica alguns segundos tentando lembrar. E essa diferença importa muito!
Uma casa organizada não diz muita coisa sobre a qualidade da relação entre duas pessoas. O casal pode ter estabilidade financeira, filhos bem cuidados e uma rotina previsível sem sentir satisfação em estar junto.
Também vejo muitos homens confundindo ausência de briga com tranquilidade. Eles dizem: "A gente quase não discute". Quando começo a investigar, descubro que os dois simplesmente pararam de discutir determinados assuntos porque já esperam o mesmo resultado.
Você fala, ela não muda. Ela fala, você não muda. Depois de algum tempo, ninguém fala mais nada mesmo.
Observe como vocês passam o tempo juntos. Vocês conversam porque têm vontade de conversar ou apenas porque precisam combinar alguma coisa? Você ainda conta para ela alguma coisa que aconteceu no seu dia porque quer compartilhar, ou ela é apenas a pessoa que precisa saber dos assuntos da família? Você sente falta dela quando ela está longe? Não estou falando da falta que você sente da rotina que ela ajuda a manter. Estou falando dela.
No consultório, às vezes aparece um detalhe bastante curioso, que acontece quando o homem conta que a esposa viajou por alguns dias e ele diz que conseguiu descansar melhor, ficou mais tranquilo, fez o que queria, saiu com os amigos, assistiu às coisas de que gosta.
Outro sinal é quando cada um começa a viver uma vida paralela dentro do mesmo casamento. Cada um tem seus amigos, seus programas, seus horários e seus interesses. Isso, por si só, não é um problema. Um casal saudável não precisa fazer tudo junto e é fundamental que cada um tenha mesmo a sua individualidade. O que merece atenção é quando a vida individual vai ocupando praticamente todo o espaço que antes pertencia ao casal.
A intimidade costuma mostrar isso com bastante clareza, com o sexo diminuindo muito ou desaparecendo. Talvez ainda aconteça, mas sem proximidade. O toque espontâneo também some. Vocês dormem na mesma cama, dividem a casa e continuam sendo um casal, mas quase não existe contato entre vocês que não tenha uma finalidade prática ou sexual.
E não, uma fase assim não significa automaticamente que o casamento esteja acabado. Filhos pequenos, problemas financeiros, excesso de trabalho, doença na família e períodos de estresse podem afetar profundamente a disponibilidade de um casal. Mas se isso se prolonga e ninguém demonstra interesse em recuperar a relação, isso pode exigir atenção.
Entre os homens, percebo ainda uma dificuldade específica para reconhecer esse tipo de insatisfação. Muitos foram acostumados a medir se a vida está dando certo pelas responsabilidades que conseguem cumprir, como por exemplo: se o trabalho está em dia, as contas estão pagas, os filhos estão bem e a família tem segurança.
Às vezes, por estar infeliz, ele trabalha mais, fica mais tempo no celular, sai mais com os amigos, começa a passar mais tempo sozinho, arranja alguma coisa para fazer longe da família.
Eu não estou dizendo que todo homem que trabalha muito ou gosta de ficar sozinho está infeliz no casamento. Seria uma conclusão absurda. Estou falando de uma mudança de comportamento que aparece junto com o afastamento da relação e que o próprio homem começa a perceber, mesmo que ainda não consiga nomear.
Em casos assim, tente investigar o que está acontecendo. Sua esposa percebe a mesma coisa? Ela também sente falta da relação que vocês tinham? Existe disposição dos dois para mexer nisso? Ou apenas você está incomodado?
Essa resposta é importante porque um casamento não pode ser recuperado por uma única pessoa.
Também não recomendo tomar decisões definitivas no auge dessa percepção. Primeiro tente entender o que aconteceu. Há quanto tempo vocês estão assim? O afastamento começou depois de algum acontecimento específico? O desejo de ficar sozinho aparece apenas dentro do casamento ou também em outras áreas da sua vida? Você ainda sente admiração pela sua esposa? Ainda existe carinho? Existe vontade de reconstruir alguma forma de intimidade?
São perguntas que ajudam a separar uma insatisfação conjugal de um momento ruim da vida.
Se vocês tentam conversar e sempre terminam no mesmo lugar, a terapia de casal pode ajudar. Eu vejo isso funcionar melhor quando os dois entram no processo dispostos a entender o que aconteceu, inclusive aquilo que cada um contribuiu para criar.
Caso queira, você pode marcar uma consulta para discutir esse assunto! Clique aqui para entrar em contato: Marcar Consulta ou Formulário de Interesse
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